15 Junho 2009

Gravuras japonesas... originais!















Estava eu passeando em Londres, pelos lados de Islington, quando me deparo com uma pequena galeria de arte japonesa... Tinha até anotado alguns endereços japas para visitar, mas em apenas 3 dias de viagem e alguns compromissos, resolvi desencanar e flanar pela cidade.

A Japanese Gallery não era um dos endereços do meu caderno, mas se jogou na minha frente quando estava com uns amigos em busca de um café simpático. Quando entrei, só para "dar uma olhadinha", me deparei não apenas com reproduções, mas com impressões originais! Algumas eram até bem acessíveis (quando penso que não tive tempo de voltar lá para comprar uma shunga do tamanho de um cartão postal de um anônimo do século 19 por £ 50, tenho um leve ataque de arrependimento).

Mas o mundo não está acabando e, mesmo Londres sendo um pouco distante, parte do acervo deles está online.

Para quem está de passagem pela cidade, há outro endereço em Kesington. Mas recomendo a que visitei, que fica na Camden Passage, pertinho do metrô Angel (Northern line). A região é fofa, com uns cafés simpáticos e uma HUB em uma ruela escondida (ao lado um outro café simpático) atrás da estação de metrô.


02 Junho 2009

Murakami (Haruki) esgotado












Acaba de sair o último romance do escritor Haruki Murakami:

1Q84

cujas vendas estavam esgotadas na amazon.co.jp antes mesmo do seu lançamento (na última sexta) e sem que qualquer propaganda prévia ou sinopse da história fossem lançadas ao público.

A decisão foi tomada pela editora de 1Q84, Sinchosha, depois que algumas informações sobre o último romance do escritor (Kafka à beira mar, que saiu no mercado há cinco anos) vazaram antes do seu lançamento.

O mistério alimentou a curiosidade dos fanáticos pelas histórias de Murakami. Eu eu, aqui, fico me lamentando que vou ter que esperar mais um tanto pela tradução em inglês ou francês.

06 Maio 2009


Tokyo Sonata ou pra quê fazer cinema hoje

Primeiramente, somos apresentados a imagem conhecida: a mulher japonesa que serve ao lar e ao seu marido. Não raro temos imagens como essa no cinema japonês. Yasujiro Ozu, Mikio Naruse, até mesmo Kenji Mizoguchi, foram hábeis em virar suas câmeras para a família, o lar e a mulher japonesa, com seu funcionamento compartimentado e papéis regulamentados.
Mas Tokyo Sonata, último filme de Kiyoshi Kurosawa, extrapola os limites do “filme de família” e consegue, aos poucos, tratar não só da sociedade japonesa, mas também do próprio fazer cinematográfico. Para quem não sabe, Kiyoshi Kurosawa (que não tem nenhuma relação familiar com Akira Kurosawa), tornou-se nome badalado na cena de festivais de cinema na última década por seus filmes fantasiosos, que mantinham sempre alguma relação de adesão e sabotagem com o cinema de gênero. Nos seus últimos filmes – a exemplo do sua produção de 2003, Bright Future (Akarui Mirai) –, ele vem tratando de questões, alguns diriam, sociológicas do Japão, mas sempre apontando para um posicionamento estético que permita com que a imagem não se dilua no discurso do real social. Naquele caso, uma mera água-viva fazia com a estrutura narrativa de “crítica à juventude alienada” se quebrasse e se tornasse fluida. Por isso, eu diria, ele é um dos bons exemplos do cinema contemporâneo: antes de discurso, é cinema.
Temos então, em Tokyo Sonata, a família perfeita: pai, mãe e dois filhos. Até que o pai perde o emprego, mas continua reproduzindo sua antiga rotina de executivo para evitar constragimentos familiares. Veste seu terno, sai de manhã e, em vez de ir a uma empresa, percorre o circuito de busca dos desempregados da Tóquio em recessão: filas, entrevistas, comida grátis para população de rua. Na primeira parte do filme, temos um clássico exemplo de estrutura narrativa de repetição e sentido. No entanto, enquanto, aos poucos, vemos a farsa da família perfeita se espatifar aos longos das seqüências, vemos também a potência do cinema exalar dos seus planos. O absurdo entra em cena na última meia-hora de filme, em um série de eventos que, além de subverter clichês do cinema e do cinema japonês – a temporalidade seqüencial, a defesa da honra, o filme familiar – deixam brechas para rápidos momentos de suspensão e percepção de que, se há potência num filme, ela é a de surrupiar a estrutura da visão e do significado. Ao fim, não como redenção, mas como uma possível linha de fuga – “de que se trata um filme? Qual é a funcionalidade de uma estrutura?” –, vemos o filho mais novo tocar uma peça de Debussy (se não me falha a memória) ao piano, numa longa sequência, em que somos convidados a simplesmente mergulhar na imagem e no som, desmanchando de vez a estrutura do filme que nos foi apresentada e desmantelada diante de nosso olhos, ao longo da exibição. Fora do desespero da ditadura do real na qual fomos inseridos na mais recente leva de produtos audiovisuais, com tantos reality shows, “imagens amadoras” nos noticiários, documentários “engajados” e filmes “de denúncia”, temos um sopro audio-visual, que começa cínico e termina pura potência.

04 Maio 2009

Pluralidade











(25ª Hora
, da fotógrafa chinesa Chen Lingyang)

A maioria dos posts deste blog (para não dizer todos) foram escritos/publicados por mim. Alguns nasceram de dicas de sites e convites que circulam na lista de discussão da Kiai, da qual fazem parte muitos artistas e formadores de opinião. E, apesar de ter aberto a possibilidade para que outras pessoas publicassem, eu sempre dava uma de apressadinha e ia colocando sites, trabalhos e eventos que eu ia topando pelo caminho. Talvez tenha sido a veia jornalística, a vontade de compartilhar descobertas, de abrir caminhos de pesquisa... E, com o tempo, o blog foi adquirindo um tom bem pessoal.

Há alguns dias, quando o Erico Marmiroli levantou a bola do Tokyo, the Movie (último post aqui publicado), me deu uma vontade de escrever sobre outro filme que eu tinha recentemente visto, Tokyo Sonata. Quando comecei o post, dei um delete rapidinho porque eu estava escrevendo uma mini (e chata) resenha sociológica. Então pensei: por que não pedir para o Keiji, que é especialista em cinema, dar uma pincelada sobre o filme? Ele topou.

O próximo post será o do Keiji e o convite fica (re)aberto para que outros aqui também se expressem.

Não sei se a idéia vai dar certo. Mas acho interessante o cruzamento de olhares de pessoas diferentes, transitando por diferentes cidades do mundo, absorvendo, criando, trocando.

Vou ficar na torcida.

22 Abril 2009

Tokyo, the movie













Foi no Cine Latina, ainda com casacos e cahecóis e o sol brilhando do lado de fora, que vi TOKYO THE MOVIE. São três histórias contadas por três diretores de cinema.

Gosto do terceiro episódio, Shaking Tokyo, dirigido pelo sul-coreano Bong Joon-Ho.
Conta a história de um hikikomori, termo que define indivíduos que sofrem de fobia social. Trata-se de um fenômeno da sociedade japonesa contemporânea. O episódio me tocou bastante pois confesso que tinha um certo preconceito (incompreensão?), acredito porque eles são mostrados (principalmente pela mídia) de uma maneira bem estereotipada. A narrativa de Joon-Ho nos conduz a uma sutil penetração deste interior através de uma narrativa humana.

Na minha leitura, sobressaiu a sensibilidade extrema que leva ao isolamento, e o silêncio acentuando a percepção de sutilezas.






.novo de novo.

IRASHAI... recomeço











(foto de David Gimenez publicada em seu flickr, encontrada ao acaso
quando eu fazia uma pesquisa de imagens no google para "irasahi")


Depois de uns meses na lacuna (por vários motivos, como trabalho, trabalho, decisões, distanciamento, amor, visitas, falta de tempo, descanso, reflexões, mais reflexões, mais descanso, passeio, passeio, livros, livros, pensamentos soltos, pensamentos presos, uma lista de links e referências em crescimento exponencial, e libertação sobretudo), volto a atualizar o blog.

Fato: muitos links e referências e pensamentos se perderam pelo caminho.

Então, eu decidi começar pelo fresco. O recente. Onde minha memória chega sem muito esforço. O último, penúltimo, antepenúltimo ou até mesmo antes disso. Não necessariamente o mais recente. Mais ou menos como aqueles espaços que são os últimos a secar sobre as pedras molhadas.

(Qualquer especialista no assunto pode responder esta pergunta num piscar de olhos, mas eu, na minha inocência poética, prefiro imaginar que existe uma razão misteriosa que faz alguns espaços secarem antes de outros sobre um chão de pedra. A tal mesma razão faria com que outros demorem mais para secar. É besta, bem besta, eu sei. E ainda penso que há uma relação entre isso e aquilo que fica fresco na nossa mente.)

A imagem que chega é o caminho de pedras que leva à cabana de uma cerimônia do chá.
Quem já percorreu sabe.
As pedras por onde se pisa estão frescas.

O espaço que não secou nas minhas memórias data o verão de 2007.
Mais precisamente, Kyoto, 24 de julho de 2007.
Alto verão. Noite bem dormida na viagem de ônibus que partiu de Tokyo. Café da manhã delicioso na estação de trem futurista. Algumas olheiras. E calor.
Fomos um dos os primeiros a chegar no Kinkaku-ji.















(by KIKKS)


(piso sobre mais algumas pedras ainda molhadas: a visita ao templo dourado era um dos pontos altos da viagem... Plinio havia descoberto um ano antes que da janela da cabana da cerimônia do chá se avistava o templo, como se ele tivesse sido construído apenas para compor a vista, Richard tinha lembranças do livro de Mishima que leu na sua adolescência, e eu tinha a referência de um dos passeios preferidos da minha infância: Itapecerica da Serra para acompanhar a construção da réplica do templo japonês — lembro do terreno vazio, das pedras, das histórias de mortos em crematórios, das estruturas de madeira sem pregos, apenas encaixadas, dos caminhos de terra, do cheiro de mato, do galo dourado envolto de um lago seco e, depois, um templo, um jardim, um lago, carpas, cinzas, vida e morte)

Quando estava indo embora, notei um senhor regando o caminho de entrada.

(by KIKKS)

18 Dezembro 2008

Ukiyo-e democrático















Ontem, eu caí meio que por acaso com uma amiga em uma exposição de ukiyo-e na antiga Biblioteca Nacional. Eu sempre adorei este lugar, me sentia "gente grande" quando entrava lá para estudar e ficava imaginando quais eram os arquivos de história da arte aos quais o grande público não tem acesso. Desta vez, eles abriram para o público o acervo de gravura japones. Quase todos os grandes mestres estão lá. O mais legal é que eles disponibilizam no site uma visita virtual. Para quel fala francês, uma boa aula de ukiyo-e. Para quem não fala, imagens lindas, basta clicar em "toute l'icono".

O mais legal ainda é que a Biblioteca Nacional criou uma ferramenta fantástica e democrática: os comentários da curadora da exposição sobre algumas obras em mp3. Antes de ir à exposição, você baixa os arquivos no seu iPod ou celular e tem uma visita audioguiada sem pagar absolutamente nada. Ao lado de algumas obras, aparece indicado o número do arquivo que você baixou para que você possa escutar os comentários.

Fico aqui na torcida para que museus do mundo todo adotem esta idéia.



















Deixo esta imagem linda do Hiroshige que até então não conhecia...

26 Novembro 2008

Desenho

da escritora Hilda Hilst



















curiosamente (ou não), na abertura do livro Estar Sendo. Ter Sido, último escrito pela autora, há uma citação de Hokusai na abertura:

Desde a idade de seis anos, eu tinha uma mania de desenhar a forma dos objetos. Por volta dos cinqüenta, havia publicado uma infinidade de desenhos, mas tudo o que produzi antes dos sessenta não deve ser levado em conta. Aos setenta e três, compreendi mais ou menos a estrutura da verdadeira natureza, as plantas, as árvores, os pássaros, os peixes e os insetos. Em conseqüência, aos oitenta, terei feito ainda mais progresso; aos noventa, penetrarei o mistério das coisas; aos cem, terei decididamente chegado a um grau de maravilha, e quando eu tiver cento e dez anos, para mim, seja um ponto, seja uma linha, tudo será vivo.